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Você não tem medo de abandono. Você tem medo de se ver.

  • Foto do escritor: Isabelle de Fatima
    Isabelle de Fatima
  • 11 de mar.
  • 3 min de leitura

Medo de abandono é uma das expressões mais usadas quando o assunto é relacionamento. Ela aparece em artigos, em conversas, em autodefinições oferecidas quase como explicação suficiente: "meu problema é medo de abandono."

E há verdade nisso. Mas talvez não toda a verdade.

Porque existe uma pergunta que essa explicação às vezes encobre: o que você encontraria em si mesmo se o outro não estivesse lá para ocupar esse espaço?



O outro como espelho — e como escudo

Vínculos afetivos fazem muitas coisas ao mesmo tempo. Eles nutrem, perturbam, revelam, sustentam. Mas também podem funcionar — e frequentemente funcionam — como uma forma de não estar sozinho consigo mesmo.

Não no sentido banal da companhia. Mas no sentido de que a presença do outro organiza a experiência interna. Dá direção ao desejo, estrutura à rotina, resposta à pergunta implícita: eu importo?

Quando esse outro vai embora — ou ameaça ir — o que colapsa não é só o vínculo. É a organização interna que dependia dele para se sustentar.

E aí aparece o terror. Que muitas vezes é chamado de medo de abandono, mas que, se olhado de perto, tem outro endereço.


O que fica quando o outro sai

Pense num momento em que você ficou sozinho de verdade — não só fisicamente, mas sem distração, sem tela, sem tarefa urgente. O que apareceu?

Para muitas pessoas, o que aparece é desconforto. Uma inquietação sem nome. Às vezes pensamentos que prefeririam não ter. Às vezes uma sensação de vazio que é difícil de sustentar.

Esse vazio não é criado pela ausência do outro. Ele é revelado por ela.

E se o maior medo não é ser abandonado, mas encontrar esse vazio — e não saber o que fazer com ele?


A lógica do apego ansioso

Há pessoas que vivem em estado de alerta permanente dentro dos relacionamentos. Monitorando sinais, interpretando silêncios, antecipando perdas que ainda não aconteceram.

Isso é exaustivo. E muitas vezes incompreensível para quem está de fora — inclusive para o próprio sujeito, que sabe racionalmente que não há motivo imediato para o alarme, mas não consegue desligá-lo.

Esse estado de alerta raramente é só sobre o outro. Ele é, em grande medida, sobre o que o sujeito não consegue garantir para si mesmo: uma sensação interna de estabilidade que independa do que o outro faz ou deixa de fazer.

Quando o senso de si é frágil, o outro vira âncora. E perder a âncora significa à deriva — não só sem ele, mas sem si mesmo.


Sobre se ver

Ver a si mesmo é diferente de se conhecer no sentido intelectual — saber quais são seus padrões, suas tendências, suas histórias. Muita gente sabe tudo isso e ainda foge de si mesma com maestria.

Ver a si mesmo é suportar o que aparece quando o barulho para. É estar com a própria experiência sem precisar imediatamente transformá-la, explicá-la ou dividi-la com alguém.

É uma capacidade que se desenvolve — não nasce pronta. E que, para muitas pessoas, nunca foi ensinada ou permitida.

Se desde cedo aprender a existir em função do olhar do outro — para ser aprovado, para não ser abandonado, para manter a paz — o olhar interno fica sem treino. E o que não foi treinado assusta.


Uma distinção que pode mudar algo

Dizer "tenho medo de abandono" coloca o problema no outro — na possibilidade de que ele vá embora.

Perguntar "o que eu encontro quando estou só comigo?" coloca o problema — e a possibilidade — em outro lugar.

Não para culpar. Não para sugerir que o vínculo não importa ou que a dor não é real. Mas porque quando o trabalho se volta para a relação consigo mesmo, algo muda na relação com o outro.

Não de forma mágica. Mas de forma real.

Quem consegue estar consigo — suportar o próprio vazio, reconhecer a própria presença — não precisa que o outro fique para provar que existe.

E paradoxalmente, é justamente aí que os vínculos podem ser escolhidos com mais liberdade. Não por desespero de não ficar só. Mas porque o outro, de fato, acrescenta algo.


Para terminar — ou para começar

Se você se reconheceu em alguma parte desse texto, talvez a pergunta não seja "como faço para não ter medo de abandono?"

Mas sim: o que eu ainda não aprendi a fazer comigo mesmo?

Essa é uma pergunta que não se responde de uma vez. Mas que, quando começa a ser feita com honestidade, já move alguma coisa.

 
 
 

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